quarta-feira, 17 de novembro de 2010

A ideia

E a multidão ovacionava os jogadores, um a um. Entoava seus nomes com a mesma intensidade e reverência com que cantavam o hino do próprio país. Ele já estava acostumado com isso, afinal. Já apitara várias vezes um jogo do time da casa e conhecia bem os rituais: primeiro o nome de cada jogador do elenco era cantado várias vezes, por último e muito mais alto o nome do capitão. O hino do Brasil era seguido pelo do estado, e depois, por conta da torcida, uma das várias músicas por eles criadas.
No momento, a torcida inteira ovacionava o capitão, que agradecia modestamente, até um tanto envergonhado, com acenos dos braços.
Uma olhada no relógio. Menos de um minuto para o início da execução dos hinos. Os jogadores iam terminando o aquecimento e aos poucos se posicionando lado a lado. A torcida silenciou por um momento. É claro que ele não viu – aliás, ninguém mais viu – mas, ali no meio da multidão, duas pessoas compartilhavam uma curiosa idéia.
Em segundos, a idéia se espalhou por toda a torcida, de repente mobilizada. Os jogadores no gramado começaram a observar, curiosos, o silêncio que não era de praxe.
A idéia se propagava como uma onda. Uma grande onda. Quase um tsunami. Cabeças se moviam enquanto vozes agitadas formavam um grande murmúrio pelo estádio. Ele mesmo não pode deixar de reparar, e voltou a sua atenção para os torcedores em sua quietude empolgada. Mas no exato momento em que ele olhava pela segunda vez no relógio perguntando-se qual seria o motivo da mobilização, começou.
A um sinal imperceptível, todos começaram a cantar:
“Juiz”. Clap, clap, clap. “Juiz”. Clap, clap, clap.
Demorou um pouco até que ele entendesse.
Em sua carreira, já fora xingado de palavrões que nem conhecia. Sua pobre mãe, então. Já fora acertado por latinhas, aviões de papel e sanduíches pela metade. Mas aquilo...
Aquilo era indescritível.
Os jogadores estranharam, mas não ligaram muito. Os bandeirinhas ficaram entre entusiasmo e dor-de-cotovelo. Mas ele... uma lágrima rolou por seu rosto e caiu no gramado. A torcida silenciara, os hinos já haviam sido executados mas ele ainda não conseguia acreditar. O bandeirinha lhe cutucou. Era hora do jogo. Era hora da grande final.
Enchendo o peito, fez soar o apito. Na sua cabeça, tudo o que pensava é que não poderia errar. Tinha de ser o jogo perfeito, a arbitragem perfeita.
O time da casa foi rápido. O altão camisa 9 lançou para o baixinho camisa 11, que driblou o marcador com facilidade a passou para o lateral de pernas curtas camisa 6. Ganhou do zagueiro na corrida, chegou em posição boa pra cruzar e meteu a bola rasteira na área. Pro capitão. Perfeito. Só empurrar pro gol.
Mas ele passou. Deu um passe de letra pro loirinho camisa 7. O gol ficou aberto. A torcida levantou. Era o gol. Gol. GOL!
Mas o loirinho tropeçou. O zagueiro estava firme na marcação atrás dele, mas ele tropeçou sozinho. Todo mundo viu. A bola passou por ele e foi embora pra lateral, mas ninguém queria saber da bola.
A torcida queria o pênalti.
O juiz sentiu o coração parar. Ele, o bandeira, a torcida, o marcador, o técnico, o loirinho, todos sabiam que fora um tropeço.
Mas ainda assim.
A torcida o amava.
E queria o pênalti.
Começou a suar frio. Era uma carreira inteira contra a felicidade de vinte mil torcedores. A justiça contra a paixão.
Mas todo o turbilhão de emoções durou apenas alguns segundos. O bandeirinha estava acenando. O juiz olhou. Bandeira levantada. Impedido.
A torcida agora estava a ponto de invadir o gramado. Queriam matar o bandeira. Queriam matar a mãe do bandeira. Queriam matar o capitão que passou a bola. Gritavam absurdos indizíveis, chutavam as cadeiras e uns aos outros.
E o juiz correu leve até o canto do gramado e mandou o jogador cobrar logo o lateral. Ele demorou um pouquinho, e o juiz deu um amarelo, só pra agradar a multidão. E deu certo. Ele sorriu. Tinha, afinal, um lugar no coração do torcedor.

sexta-feira, 5 de novembro de 2010

Eu não sou cachorro não

– Acho que vou comprar um cachorro.
– Você tá louco.
– Ora, que mal há nisso?
– Tudo.
– Como assim tudo?
– Tudo de mal. Cachorros só trazem problemas.
– Você está sendo insensível.
– Não, é a mais pura verdade.
– Por quê?
– Primeiro, eles dão trabalho. Você tem que dar de comer, limpar cocô, levar pra passear.
– Ah, como se isso fosse grande problema.
– Eles latem a noite inteira. Você mora em apartamento, seus vizinhos não iam deixar.
Intervalo para um grande gole de chope.
– Besteira. Você tá exagerando.
– Cachorros transmitem raiva.
– Eles trazem alegria!
– Mas transmitem raiva.
– Imagine que legal, chegar em casa e encontrar seu cachorro feliz da vida, vindo te lamber.
– Um dia ele vai morrer.
– Que horror!
– Verdade, sua casa toda vai ficar triste.
– Mas isso pode acontecer com pessoas também.
– Pra que aumentar a probabilidade?
Outro grande gole.
– Talvez você tenha razão.
– Tenho.
– Não vou comprar o cachorro.
– Como assim?
– Você me convenceu, não vou comprar.
– Você não tem coração?
Dessa vez só um deles bebeu, o outro ficou olhando.
– O que você tá dizendo?
– Você não pode desistir assim. Você diz pro bicho que vai comprar ele, libertar ele daquela casinha horrível no Pet Shop e agora simplesmente desiste? Imagine como ele vai se sentir traído.
– Mas ele não sabe que eu iria comprá-lo.
– Ele sente.
Sem goles de chope.
– O que eu faço agora?
– Tem que dar um jeito.
– Não posso comprar ele nem deixar de comprar!
– Pois é.
– Como assim pois é?
– Não sei, fuja.
– Fugir?
– Sim, se mude de cidade. Talvez ajude você a se livrar do peso esmagador na consciência.
Agora um deles afastou a caneca.
– Acho que estou meio mal.
– Experimente mudar de país.
– Não adianta. Sou um destruidor de sonhos.
– Pois é.
– Acho que vou comprar o cachorro. Só pra ele não ficar infeliz.
– Você não amaria ele de verdade.
– Mas eu poderia fingir.
– Não adianta. Ele sente.
– Eu sou um monstro.
– Pois é.
Um deles levanta.
– Vai aonde?
– No Pet Shop.
– Fazer o quê?
– Comprar um gato.