quarta-feira, 15 de setembro de 2010

A porta do armário

Chamou pela mãe uma, duas e três vezes até que ela viesse, irritada, perguntando o que acontecera.
– A porta do armário sumiu.
A mãe coçou a cabeça, curiosa. De fato, o armariozinho de madeira tinha agora todo o seu conteúdo exposto, e nem sinal da porta.
– Deve ter sido a Vânia.
– Já perguntei, não foi ela – disse, com ar de inteligência.
Depois de pensar mais um pouco, a mãe chegou a conclusão nenhuma e deu de ombros. Não era, afinal, tão importante assim.
À noite, o pai chegou em casa e perguntou pela porta do armário. Nem o menino, nem a Vânia e nem a mãe souberam responder. Simplesmente desaparecera. O pai não gostou da notícia, e decidiu ligar para Seu Joaquim, o faz tudo da região.
– Alô, Seu Joaquim?
– Boa noite.
– A porta do armário aqui de casa sumiu, o senhor pode arrumar outra?
– Tenho horário livre na sexta.
– Mas só na sexta, Seu Joaquim?
– Só na sexta.
E ficou por isso mesmo. Seu Joaquim não veio, nem a porta.
Com o passar dos dias, alguns insetos começaram a entrar no armário. As formigas entravam no pote de açúcar, abelhas no pote de mel, e até baratas passavam de vez em quando para dar um alô.
Em duas semanas a comida já não prestava mais, e o armário contava com extraordinária biodiversidade. O pai ligou para o dedetizador, mas ele só podia vir na sexta.
Em um mês toda a cozinha já fora tomada, e agora era proibido circular por lá. Havia mosquitos, minhocas, salamandras, saúvas, um morcego e um filhote de leopardo. Rumores diziam que os dois últimos tinham um caso.
Mas não parou por aí. A sala de estar já não era mais a mesma, e nem a mesa de jantar foi poupada pelos cupins. Traças deixavam furos nas roupas e nos livros, mariposas construíam casas financiadas no lustre do quarto de visitas.
Em bem menos de um ano a casa foi interditada pela Saúde Pública. Os vizinhos, assustados com o barulho dos animais, mudaram-se também. Sem perda de tempo, a fauna tomou conta também das outras casas. Toda a vizinhança sumiu de um dia para o outro, foi para a cidade grande ou para o Taiti.
Animais de grande porte juntaram-se ao leopardo. A casa 313 era exclusiva dos cachorros. Começou a crescer mato nos telhados e no chão.
Em pouco tempo o lugar perdeu o título de cidade e foi completamente isolado. Ali, os animais contruíram um lar harmonioso e feliz – e há quem diga que as formigas implantaram na região algo muitíssimo parecido com um regime socialista.

3 comentários:

  1. Hasuhaushaush muito bom.. Boatos q o morcego e o filhote de leopardo tinham um caso:-o?? Formigas e o sistema capitalista? Pelo menos os animais viveram felizes...Mas... e a porta do armário?? kkkkkk

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  2. Ian!
    Perfeito velho, muito bom seu texto é impressionante como as pessoas se acomodam por causa de uma mera "sexta-feira"
    Abraços pia

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  3. Uma ótima metáfora da ocupação humana. E de como a maioria pessoas deixam tudo para depois, tudo para a última hora, pois é, ta aí o resultado.
    Bjos

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