quinta-feira, 2 de maio de 2013

Escravo da mesóclise

Tudo começa quando se escreve demais.

Lembro bem de meus primeiros textos, rabiscados com giz-de-cera, sem a pretensão de escrever nada muito memorável. Vírgulas no, lugar errado. Frases sem acentuacao. Uma grafia tão pessoal que eu era o único capaz de entender. E tudo era uma confusão inspiradora, livre de pronomes oblíquos.

Então começam as aulas de gramática.

Me lembro bem das minhas aulas de gramática. A gente começa aprendendo que "nós" é melhor que "a gente", o que a gente normalmente considera uma afronta pessoal, do caso reto. Os textos começam a ter mais cara de textos, e a gente nós aprendemos a escrever com caneta ao invés de giz-de-cera. Em folhas com linhas, e não mais em sulfite. E começam também as correções. Agora se recebe nota por aquilo que se faz. E tem que ser tudo escrito "do jeito certo", porque agora existe um jeito certo.

E aí vem a ênclise.

Lembro-me bem de quando ouvi falar, pela primeira vez, de que não se deve começar frases com pronomes oblíquos.  E  com conjunções então, nem pensar! Agora "nós"já não é tão bom, e o legal mesmo é sujeito oculto. Devemos agora escrever textos coesos, com começo, meio e fim. A professora dá-nos um assunto pré-determinado, e damos adeus à liberdade de escrever sobre as férias. E crases, e mais pronomes, e mais casos. E sempre começando frases com conjunção. Menos um, menos dois, menos três pontos na redação. Tinta vermelha onde faltou parágrafo, xis na viajem escrita com jota.

O que mesmo é giz-de-cera?

Lembrar-me-ei do momento fatídico em que a mesóclise levou embora minhas últimas lembranças de um tempo já distante, da saudosa infância de pão-de-mel e descompromisso! Dos anos, que há muito se foram, livres de apostos e vocativos. Ah, quando não me assombravam as interjeições! Tornei-me escravo da mesóclise, viciado em complicação, acorrentado às metáforas cruéis como o próprio amargo da vida!

Mais do que um intelectual, me tornei um chato!

Encontrei uma receita que eu escrevi quando era pequenino. Uma receita de "Bolo de Fuba". Sem se preocupar com sílaba tônica, com letra maiúscula ou com começo, meio e fim. Um texto feito de trigo, leite, três ovos e uma xícara de Fuba. E, por alguma razão, me pareceu um texto contente. Confiante, despreocupado, solto. Será que andei me levando a sério demais?

Comprometer-me-ei, de agora em diante, a simplificar!

Ou qualquer coisa assim.


Um comentário:

  1. Deu vontade de mostrar esse texto. Pra alunos, em maioria. De salvar o mundo da chatice.

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