terça-feira, 14 de dezembro de 2010

À moda antiga

– O que ele disse?
– Também não entendi.
– Volta um pouquinho.
– Ah, vô, esquece. Não vai ficar voltando o filme...
– Mas eu não entendi o que ele disse.
– Eu também não, vô.
– Mas e se for importante?
– É só uma frase, vô!
– Mas ele pode ter revelado o identidade do assassino.
– Porque ele ia falar isso pro dono do banco?
– Ele pode ajudar a salvar a mocinha.
Suspiro.
– Tá bom, vô. Cadê o controle?
– Pra quê controle?
– Pra voltar a cena, vô.
– Mas vai lá no cassete e aperta o botão!
– É DVD, vô. DVD.
– Tanto faz. Larga a mão de ser mole e vai lá apertar o botão.
– Mas tem o controle, vô. Não precisa.
– Cadê o controle?
– Deve tar embaixo da sua almofada.
– Não tá.
– Como que o senhor sabe?
– Porque eu sempre olho antes de sentar pra ver se não tem aranha.
– Vô!
– Não tá.
– Aqui também não.
– Então levanta e aperta.
Suspiro.
Grunhido.
Passos.
– Ah, vô, esse DVD não tem botão.
– Como assim não tem botão?
– Não tem!
– Mas que raio de aparelho que não tem botão? Até o meu cassete tem botão.
– Esquece o seu cassete, vô. Isso aqui é moderno.
– Moderno? É isso que vocês chamam de moderno? Que tipo de coisa moderna não tem botão?
– Só da pra voltar pelo controle.
– Ah, mas isso é o que nós vamos ver.
– Vô!
– Vou pegar minha marreta.
– Nem pense nisso.
Passos.
Caixa de ferramenta abrindo.
Tilintar.
Passos.
– Vô! Para vô! PARA VÔ!
Bum.
– Agora vou mostrar pra você o que é moderno.
– VÔÔÔÔÔÔÔÔÔÔÔ!
– Pare de chorar e me ajude a achar a caixa do cassete.
– VOCÊ MARRETOU O MEU DVD!
– Se fosse moderno mesmo tava inteiro.
Ganido.
– Já dei umas três dessa no meu cassete e ele continua inteiro.
– Ah vô... e o final do filme, hein?
– Não tem pra alugar em fita cassete?
– NÃO VÔ!
– Então procura no teu computador.
– O quê?
– O final do filme.
– Ele não tá ligando.
– Ah, mas isso é o que nós vamos ver...

quarta-feira, 8 de dezembro de 2010

O sininho

E foi chegando, como sempre fazia, passando pela portinha sempre aberta com os painéis de vidro e cumprimentando eventualmente um ou outro compadre sentado às mesinhas redondas. Alcançou a balcão, mais vazio do que de costume, e já tratou de chamar o Pedrão.
– E aí, qual é a boa?
– Tudo na mesma.
– Tá vazio hoje.
– Tá, deve ser por causa do feriado. Pessoal foi pra praia.
– Vida boa. O de sempre.
– Um segundo.
E ele já foi se aconchegando no banquinho, já que o bar vazio era uma oportunidade rara e desperdiçar era ofensa. Dobrou o braço e foi apoiar o cotovelo no balcão, quando bateu em alguma coisa fria.
– Que raio é isso, Pedrão?
– Ah, não te mostrei ainda. É um sininho.
– Sininho?
– É, um daqueles em que você bate pra chamar o atendente.
– Mas vê lá se sininho é coisa de macho, Pedrão! E além do mais, você nunca sai desse balcão, pra que diabos um sininho?
Pedrão, pouco à vontade, olhou muito INdiscretamente para os dois lados com uma sobrancelha levantada, como costumava fazer. Se tivesse alguém olhando, desviava o olhar na hora.
– Chega mais pertinho.
Os dois ficaram a menos de uma palmo de distância. Mais perto o pessoal desconfia.
– Esse aí é o sininho do assalto.
O outro fez uma cara daqueles que dizia "hm", mas não chegou a verbalizar nada. Pedrão prosseguiu.
– Foram três assaltos no último mês, e é uma coisa bem desnecessária. O cara entra aí com o garrucho, diz que é um assalto, pega uma cerveja e vai embora. Faz todo mundo deitar no chão, é uma palhaçada. A clientela foge, o Mauro até parou de vir.
– O Mauro?
– O Mauro. Já tinha acontecido duas vezes, e ele falou que se assaltassem de novo ele não voltava.
– E aí...
– Não deu dois segundos ele tava no chão.
– Tá... mas qual é a do sininho?
– Eu deixo o sininho aqui. Se o cara for assaltar, ele só chega aqui e dá uma batidinha. Faz o “tlim-tlim”, não tem arma, ninguém no chão, a clientela fica.
– Mas que raio de ideia idiota, Pedrão!
– Não, você vai ver. O cara vai entrar, bater aqui, eu dou uma cervejinha pra ele, a gente bate um papo, ele vai embora.
– E se uma pessoa qualquer entrar e bater no sininho achando que é pra ser atendida?
– Aqui todo mundo é macho, ninguém bate em sininho. O Mauro quebrava o caneco na própria cabeça pra chamar a atenção, mas duvido que batesse no sininho.
– Tá. E como o assaltante vai saber que ele tem fazer isso ao invés de entrar descendo o chumbo?
– Fácil. Coloquei uma plaquinha lá fora.
– Plaquinha, Pedrão?!
– Plaquinha, pode olhar.
– Pedrão...
– Se isso der errado alguma vez nessa semana, te pago a entrada pro próximo jogo.
– Paga?
– Pago.
– Fechado.
– Fechado.
Rápido aperto de mãos. Se demorar muito o pessoal desconfia.
“Tlim Tlim”.
Pedrão se sobressaltou. Olhou pros dois lados, balcão vazio. Com a exceção...
– Você não pode!
– Isso é um assalto, Pedrão – sussurrou o outro, sorriso de canto de boca.
– Achei que... nós fôssemos amigos...
– Cerveja de graça, entrada pro jogo. Amigos, amigos, Pedrão. Assaltos à parte.

quarta-feira, 17 de novembro de 2010

A ideia

E a multidão ovacionava os jogadores, um a um. Entoava seus nomes com a mesma intensidade e reverência com que cantavam o hino do próprio país. Ele já estava acostumado com isso, afinal. Já apitara várias vezes um jogo do time da casa e conhecia bem os rituais: primeiro o nome de cada jogador do elenco era cantado várias vezes, por último e muito mais alto o nome do capitão. O hino do Brasil era seguido pelo do estado, e depois, por conta da torcida, uma das várias músicas por eles criadas.
No momento, a torcida inteira ovacionava o capitão, que agradecia modestamente, até um tanto envergonhado, com acenos dos braços.
Uma olhada no relógio. Menos de um minuto para o início da execução dos hinos. Os jogadores iam terminando o aquecimento e aos poucos se posicionando lado a lado. A torcida silenciou por um momento. É claro que ele não viu – aliás, ninguém mais viu – mas, ali no meio da multidão, duas pessoas compartilhavam uma curiosa idéia.
Em segundos, a idéia se espalhou por toda a torcida, de repente mobilizada. Os jogadores no gramado começaram a observar, curiosos, o silêncio que não era de praxe.
A idéia se propagava como uma onda. Uma grande onda. Quase um tsunami. Cabeças se moviam enquanto vozes agitadas formavam um grande murmúrio pelo estádio. Ele mesmo não pode deixar de reparar, e voltou a sua atenção para os torcedores em sua quietude empolgada. Mas no exato momento em que ele olhava pela segunda vez no relógio perguntando-se qual seria o motivo da mobilização, começou.
A um sinal imperceptível, todos começaram a cantar:
“Juiz”. Clap, clap, clap. “Juiz”. Clap, clap, clap.
Demorou um pouco até que ele entendesse.
Em sua carreira, já fora xingado de palavrões que nem conhecia. Sua pobre mãe, então. Já fora acertado por latinhas, aviões de papel e sanduíches pela metade. Mas aquilo...
Aquilo era indescritível.
Os jogadores estranharam, mas não ligaram muito. Os bandeirinhas ficaram entre entusiasmo e dor-de-cotovelo. Mas ele... uma lágrima rolou por seu rosto e caiu no gramado. A torcida silenciara, os hinos já haviam sido executados mas ele ainda não conseguia acreditar. O bandeirinha lhe cutucou. Era hora do jogo. Era hora da grande final.
Enchendo o peito, fez soar o apito. Na sua cabeça, tudo o que pensava é que não poderia errar. Tinha de ser o jogo perfeito, a arbitragem perfeita.
O time da casa foi rápido. O altão camisa 9 lançou para o baixinho camisa 11, que driblou o marcador com facilidade a passou para o lateral de pernas curtas camisa 6. Ganhou do zagueiro na corrida, chegou em posição boa pra cruzar e meteu a bola rasteira na área. Pro capitão. Perfeito. Só empurrar pro gol.
Mas ele passou. Deu um passe de letra pro loirinho camisa 7. O gol ficou aberto. A torcida levantou. Era o gol. Gol. GOL!
Mas o loirinho tropeçou. O zagueiro estava firme na marcação atrás dele, mas ele tropeçou sozinho. Todo mundo viu. A bola passou por ele e foi embora pra lateral, mas ninguém queria saber da bola.
A torcida queria o pênalti.
O juiz sentiu o coração parar. Ele, o bandeira, a torcida, o marcador, o técnico, o loirinho, todos sabiam que fora um tropeço.
Mas ainda assim.
A torcida o amava.
E queria o pênalti.
Começou a suar frio. Era uma carreira inteira contra a felicidade de vinte mil torcedores. A justiça contra a paixão.
Mas todo o turbilhão de emoções durou apenas alguns segundos. O bandeirinha estava acenando. O juiz olhou. Bandeira levantada. Impedido.
A torcida agora estava a ponto de invadir o gramado. Queriam matar o bandeira. Queriam matar a mãe do bandeira. Queriam matar o capitão que passou a bola. Gritavam absurdos indizíveis, chutavam as cadeiras e uns aos outros.
E o juiz correu leve até o canto do gramado e mandou o jogador cobrar logo o lateral. Ele demorou um pouquinho, e o juiz deu um amarelo, só pra agradar a multidão. E deu certo. Ele sorriu. Tinha, afinal, um lugar no coração do torcedor.

sexta-feira, 5 de novembro de 2010

Eu não sou cachorro não

– Acho que vou comprar um cachorro.
– Você tá louco.
– Ora, que mal há nisso?
– Tudo.
– Como assim tudo?
– Tudo de mal. Cachorros só trazem problemas.
– Você está sendo insensível.
– Não, é a mais pura verdade.
– Por quê?
– Primeiro, eles dão trabalho. Você tem que dar de comer, limpar cocô, levar pra passear.
– Ah, como se isso fosse grande problema.
– Eles latem a noite inteira. Você mora em apartamento, seus vizinhos não iam deixar.
Intervalo para um grande gole de chope.
– Besteira. Você tá exagerando.
– Cachorros transmitem raiva.
– Eles trazem alegria!
– Mas transmitem raiva.
– Imagine que legal, chegar em casa e encontrar seu cachorro feliz da vida, vindo te lamber.
– Um dia ele vai morrer.
– Que horror!
– Verdade, sua casa toda vai ficar triste.
– Mas isso pode acontecer com pessoas também.
– Pra que aumentar a probabilidade?
Outro grande gole.
– Talvez você tenha razão.
– Tenho.
– Não vou comprar o cachorro.
– Como assim?
– Você me convenceu, não vou comprar.
– Você não tem coração?
Dessa vez só um deles bebeu, o outro ficou olhando.
– O que você tá dizendo?
– Você não pode desistir assim. Você diz pro bicho que vai comprar ele, libertar ele daquela casinha horrível no Pet Shop e agora simplesmente desiste? Imagine como ele vai se sentir traído.
– Mas ele não sabe que eu iria comprá-lo.
– Ele sente.
Sem goles de chope.
– O que eu faço agora?
– Tem que dar um jeito.
– Não posso comprar ele nem deixar de comprar!
– Pois é.
– Como assim pois é?
– Não sei, fuja.
– Fugir?
– Sim, se mude de cidade. Talvez ajude você a se livrar do peso esmagador na consciência.
Agora um deles afastou a caneca.
– Acho que estou meio mal.
– Experimente mudar de país.
– Não adianta. Sou um destruidor de sonhos.
– Pois é.
– Acho que vou comprar o cachorro. Só pra ele não ficar infeliz.
– Você não amaria ele de verdade.
– Mas eu poderia fingir.
– Não adianta. Ele sente.
– Eu sou um monstro.
– Pois é.
Um deles levanta.
– Vai aonde?
– No Pet Shop.
– Fazer o quê?
– Comprar um gato.

quarta-feira, 15 de setembro de 2010

A porta do armário

Chamou pela mãe uma, duas e três vezes até que ela viesse, irritada, perguntando o que acontecera.
– A porta do armário sumiu.
A mãe coçou a cabeça, curiosa. De fato, o armariozinho de madeira tinha agora todo o seu conteúdo exposto, e nem sinal da porta.
– Deve ter sido a Vânia.
– Já perguntei, não foi ela – disse, com ar de inteligência.
Depois de pensar mais um pouco, a mãe chegou a conclusão nenhuma e deu de ombros. Não era, afinal, tão importante assim.
À noite, o pai chegou em casa e perguntou pela porta do armário. Nem o menino, nem a Vânia e nem a mãe souberam responder. Simplesmente desaparecera. O pai não gostou da notícia, e decidiu ligar para Seu Joaquim, o faz tudo da região.
– Alô, Seu Joaquim?
– Boa noite.
– A porta do armário aqui de casa sumiu, o senhor pode arrumar outra?
– Tenho horário livre na sexta.
– Mas só na sexta, Seu Joaquim?
– Só na sexta.
E ficou por isso mesmo. Seu Joaquim não veio, nem a porta.
Com o passar dos dias, alguns insetos começaram a entrar no armário. As formigas entravam no pote de açúcar, abelhas no pote de mel, e até baratas passavam de vez em quando para dar um alô.
Em duas semanas a comida já não prestava mais, e o armário contava com extraordinária biodiversidade. O pai ligou para o dedetizador, mas ele só podia vir na sexta.
Em um mês toda a cozinha já fora tomada, e agora era proibido circular por lá. Havia mosquitos, minhocas, salamandras, saúvas, um morcego e um filhote de leopardo. Rumores diziam que os dois últimos tinham um caso.
Mas não parou por aí. A sala de estar já não era mais a mesma, e nem a mesa de jantar foi poupada pelos cupins. Traças deixavam furos nas roupas e nos livros, mariposas construíam casas financiadas no lustre do quarto de visitas.
Em bem menos de um ano a casa foi interditada pela Saúde Pública. Os vizinhos, assustados com o barulho dos animais, mudaram-se também. Sem perda de tempo, a fauna tomou conta também das outras casas. Toda a vizinhança sumiu de um dia para o outro, foi para a cidade grande ou para o Taiti.
Animais de grande porte juntaram-se ao leopardo. A casa 313 era exclusiva dos cachorros. Começou a crescer mato nos telhados e no chão.
Em pouco tempo o lugar perdeu o título de cidade e foi completamente isolado. Ali, os animais contruíram um lar harmonioso e feliz – e há quem diga que as formigas implantaram na região algo muitíssimo parecido com um regime socialista.

sexta-feira, 20 de agosto de 2010

No mundo da rua

– Mãe, você esqueceu de trancar o carro.
“Bip”.
– Vamos logo, filho, tá frio.
– Boa noite, senhora – disse uma voz grave, vinda do escuro.
A senhora se sobressaltou.
– O senhor me assustou – disse ela, analisando o homem de cima a baixo. Trajava roupas completamente inadequadas ao frio daquela noite, chinelos pequenos demais para os pés, unhas por cortar, barba por fazer.
– Perdão, senhora. A escuridão fascina mas também assusta - apesar de que, se pedisse minha opinião, diria que a noite está excepcionalmente clara.
A senhora pensou em algo a dizer, mas as palavras lhe fugiram. Puxou o fôlego uma, duas vezes.
– Roubei suas palavras? Seria uma acusação quase bem vinda dentre as que me acostumei a ouvir.
– Quem é o senhor? – conseguiu dizer finalmente.
– Eu? Eu sou ninguém, e ao mesmo tempo tudo e todos. Apenas um andarilho nas estradas tortuosas da vida, procurando uma trecho um pouco mais florido pelo qual caminhar.
– Um guardador de carros?
– Um ser humano, se não fizer diferença. E quem me dera ser digno de guardar o que alheio é - quisera eu de mim mesmo saber cuidar! Não, apenas sobrevivo de sorte e da boa vontade de pessoas tanto mais afortunadas.
– O senhor quer um trocado?
– Uma perspectiva mais animadora de vida. Um livro, se estiver mais à mão.
– ...livro?
– Palavras provém conforto. É frio, acredite, o banco da praça.
– Bom, tenho aqui um livrinho do meu filho... “O homem invisível”, mas não acredito que o senhor...
– Homem Invisível – e riu – agradeço a boa vontade senhora... mas essa história eu já conheço.