E foi chegando, como sempre fazia, passando pela portinha sempre aberta com os painéis de vidro e cumprimentando eventualmente um ou outro compadre sentado às mesinhas redondas. Alcançou a balcão, mais vazio do que de costume, e já tratou de chamar o Pedrão.
– E aí, qual é a boa?
– Tudo na mesma.
– Tá vazio hoje.
– Tá, deve ser por causa do feriado. Pessoal foi pra praia.
– Vida boa. O de sempre.
– Um segundo.
E ele já foi se aconchegando no banquinho, já que o bar vazio era uma oportunidade rara e desperdiçar era ofensa. Dobrou o braço e foi apoiar o cotovelo no balcão, quando bateu em alguma coisa fria.
– Que raio é isso, Pedrão?
– Ah, não te mostrei ainda. É um sininho.
– Sininho?
– É, um daqueles em que você bate pra chamar o atendente.
– Mas vê lá se sininho é coisa de macho, Pedrão! E além do mais, você nunca sai desse balcão, pra que diabos um sininho?
Pedrão, pouco à vontade, olhou muito INdiscretamente para os dois lados com uma sobrancelha levantada, como costumava fazer. Se tivesse alguém olhando, desviava o olhar na hora.
– Chega mais pertinho.
Os dois ficaram a menos de uma palmo de distância. Mais perto o pessoal desconfia.
– Esse aí é o sininho do assalto.
O outro fez uma cara daqueles que dizia "hm", mas não chegou a verbalizar nada. Pedrão prosseguiu.
– Foram três assaltos no último mês, e é uma coisa bem desnecessária. O cara entra aí com o garrucho, diz que é um assalto, pega uma cerveja e vai embora. Faz todo mundo deitar no chão, é uma palhaçada. A clientela foge, o Mauro até parou de vir.
– O Mauro?
– O Mauro. Já tinha acontecido duas vezes, e ele falou que se assaltassem de novo ele não voltava.
– E aí...
– Não deu dois segundos ele tava no chão.
– Tá... mas qual é a do sininho?
– Eu deixo o sininho aqui. Se o cara for assaltar, ele só chega aqui e dá uma batidinha. Faz o “tlim-tlim”, não tem arma, ninguém no chão, a clientela fica.
– Mas que raio de ideia idiota, Pedrão!
– Não, você vai ver. O cara vai entrar, bater aqui, eu dou uma cervejinha pra ele, a gente bate um papo, ele vai embora.
– E se uma pessoa qualquer entrar e bater no sininho achando que é pra ser atendida?
– Aqui todo mundo é macho, ninguém bate em sininho. O Mauro quebrava o caneco na própria cabeça pra chamar a atenção, mas duvido que batesse no sininho.
– Tá. E como o assaltante vai saber que ele tem fazer isso ao invés de entrar descendo o chumbo?
– Fácil. Coloquei uma plaquinha lá fora.
– Plaquinha, Pedrão?!
– Plaquinha, pode olhar.
– Pedrão...
– Se isso der errado alguma vez nessa semana, te pago a entrada pro próximo jogo.
– Paga?
– Pago.
– Fechado.
– Fechado.
Rápido aperto de mãos. Se demorar muito o pessoal desconfia.
“Tlim Tlim”.
Pedrão se sobressaltou. Olhou pros dois lados, balcão vazio. Com a exceção...
– Você não pode!
– Isso é um assalto, Pedrão – sussurrou o outro, sorriso de canto de boca.
– Achei que... nós fôssemos amigos...
– Cerveja de graça, entrada pro jogo. Amigos, amigos, Pedrão. Assaltos à parte.
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