sexta-feira, 20 de agosto de 2010

No mundo da rua

– Mãe, você esqueceu de trancar o carro.
“Bip”.
– Vamos logo, filho, tá frio.
– Boa noite, senhora – disse uma voz grave, vinda do escuro.
A senhora se sobressaltou.
– O senhor me assustou – disse ela, analisando o homem de cima a baixo. Trajava roupas completamente inadequadas ao frio daquela noite, chinelos pequenos demais para os pés, unhas por cortar, barba por fazer.
– Perdão, senhora. A escuridão fascina mas também assusta - apesar de que, se pedisse minha opinião, diria que a noite está excepcionalmente clara.
A senhora pensou em algo a dizer, mas as palavras lhe fugiram. Puxou o fôlego uma, duas vezes.
– Roubei suas palavras? Seria uma acusação quase bem vinda dentre as que me acostumei a ouvir.
– Quem é o senhor? – conseguiu dizer finalmente.
– Eu? Eu sou ninguém, e ao mesmo tempo tudo e todos. Apenas um andarilho nas estradas tortuosas da vida, procurando uma trecho um pouco mais florido pelo qual caminhar.
– Um guardador de carros?
– Um ser humano, se não fizer diferença. E quem me dera ser digno de guardar o que alheio é - quisera eu de mim mesmo saber cuidar! Não, apenas sobrevivo de sorte e da boa vontade de pessoas tanto mais afortunadas.
– O senhor quer um trocado?
– Uma perspectiva mais animadora de vida. Um livro, se estiver mais à mão.
– ...livro?
– Palavras provém conforto. É frio, acredite, o banco da praça.
– Bom, tenho aqui um livrinho do meu filho... “O homem invisível”, mas não acredito que o senhor...
– Homem Invisível – e riu – agradeço a boa vontade senhora... mas essa história eu já conheço.

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