sexta-feira, 5 de novembro de 2010

Eu não sou cachorro não

– Acho que vou comprar um cachorro.
– Você tá louco.
– Ora, que mal há nisso?
– Tudo.
– Como assim tudo?
– Tudo de mal. Cachorros só trazem problemas.
– Você está sendo insensível.
– Não, é a mais pura verdade.
– Por quê?
– Primeiro, eles dão trabalho. Você tem que dar de comer, limpar cocô, levar pra passear.
– Ah, como se isso fosse grande problema.
– Eles latem a noite inteira. Você mora em apartamento, seus vizinhos não iam deixar.
Intervalo para um grande gole de chope.
– Besteira. Você tá exagerando.
– Cachorros transmitem raiva.
– Eles trazem alegria!
– Mas transmitem raiva.
– Imagine que legal, chegar em casa e encontrar seu cachorro feliz da vida, vindo te lamber.
– Um dia ele vai morrer.
– Que horror!
– Verdade, sua casa toda vai ficar triste.
– Mas isso pode acontecer com pessoas também.
– Pra que aumentar a probabilidade?
Outro grande gole.
– Talvez você tenha razão.
– Tenho.
– Não vou comprar o cachorro.
– Como assim?
– Você me convenceu, não vou comprar.
– Você não tem coração?
Dessa vez só um deles bebeu, o outro ficou olhando.
– O que você tá dizendo?
– Você não pode desistir assim. Você diz pro bicho que vai comprar ele, libertar ele daquela casinha horrível no Pet Shop e agora simplesmente desiste? Imagine como ele vai se sentir traído.
– Mas ele não sabe que eu iria comprá-lo.
– Ele sente.
Sem goles de chope.
– O que eu faço agora?
– Tem que dar um jeito.
– Não posso comprar ele nem deixar de comprar!
– Pois é.
– Como assim pois é?
– Não sei, fuja.
– Fugir?
– Sim, se mude de cidade. Talvez ajude você a se livrar do peso esmagador na consciência.
Agora um deles afastou a caneca.
– Acho que estou meio mal.
– Experimente mudar de país.
– Não adianta. Sou um destruidor de sonhos.
– Pois é.
– Acho que vou comprar o cachorro. Só pra ele não ficar infeliz.
– Você não amaria ele de verdade.
– Mas eu poderia fingir.
– Não adianta. Ele sente.
– Eu sou um monstro.
– Pois é.
Um deles levanta.
– Vai aonde?
– No Pet Shop.
– Fazer o quê?
– Comprar um gato.

2 comentários:

  1. HAHAHAHA adorei Ian, na verdade eu sempre adoro os seus contos. Dessa vez sinto que nossa conversa de ontem te inspirou hasusausau.
    beeeijos

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  2. Muito bom, como sempre.

    Beijo grande e saudades,

    Pipa

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